O valor do "rastrear e clicar" com um cursor

Esta semana ouvi uma das frases mais sensatas e inteligentes, ditas de maneira espontânea por um grande amigo.

Ao passarmos por uma vitrine (que inclusive o motivou a comprar por um belo valor L.A. Noire para seu PS3) e observando o objeto, falei já me imaginando em uso:

"-Rapaz, preciso comprar um mouse. O meu "Might" parou de funcionar. Acho que vou comprar um Magic!

Prontamente ele retorquiu:

-Tá doido? Pagar quase trezentos contos para mexer cursor!"

Pensei agora, depois de algum tempo, o quanto vale o acesso a uma interação?

Quando não precisarmos mais de tantos recursos materiais para interagir por meio da máquina, ou com ela, vamos lamentar o quanto gastamos para fazer isso.

Perdas imersivas

Gritos. Todos  os dias eram ouvidos. Mas não aqueles horrorosos que habitavam o meu enorme fone de ouvidos; os tinha desde os 9 anos, e os colocava sempre quando estava diante do monitor ou de minha TV; ou mesmo em meu 3DS.

A verdade é que não poder-se-ia dizer que as insatisfações, causas dos gritos, vieram de um dia para o outro, e que, os conflitos só surgiram agora nos últimos três meses; na verdade eles apenas ganharam voz na relação dos dois; voz tão alta que já alcançava os vizinhos do fim da quadra, de casas grandes. Assim diziam meus colegas de transporte escolar em boca miúda, com certo constrangimento.

Era assim: pela manhã, antes de sairem para o trabalho, e à noite. Quando todos esperavam o sossêgo, as vozes altas de desconforto mútuo vinham, para só se calar depois muitos e muitos minutos (30, 40, 60...). Com fones, tudo aquilo não me incomodava.

Disseram por fim que foram nestes últimos três anos que "as coisas se tornaram insuportáveis".

Não compreendo como algo insuportável pode durar tanto!

Neste mesmo intervalo ganhei coisas que mudaram minha vida: meu próprio notebook, tablet, smartphone, e meus três consoles preferidos. Uau!

Não vacilava! E meus pais também não: tinha sempre os jogos que queria, e acesso às e-stores, que hoje saem tão em conta que não mais justifica o torrent, por exemplo.

Com o tempo, passei a ser mais seletivo. Os lançamentos não me comoviam mais como no início. Aprendi a ouvir a voz da razão e da vontade na mesma altura, em equilíbrio. Hoje, compro apenas o que me parece valer à pena; e me divirto demais assim!

Foram talvez os...cerca de 40 meses mais produtivos para mim. Não pela escola, que sempre tirei de letra, com aqueles exercícios enfadonhos e desafios muito mais pobres que os puzzles de Uncharted, mas sim pela descoberta de universos fantásticos, de ficções exuberantes, lindas e inteligentes. Todo o resto do meu tempo era apenas o intervalo daquilo que mais me faz feliz: estar em jogo naquele mundo.

Foram nestes últimos quatro meses, desde que recebi o convite de um blog para fazer parte de seu time de reviewers, que passei a escrever. E assim conheci outro mundo envolvente: o de registrar idéias e impressões para a posteridade através das palavras. E acho que estou indo bem, pois até já passei a ganhar um bom dinheiro com isto.

Meus pais se separaram definitivamente há um mês. Ao certo, não sei o que motivou tudo isto. Não dá para saber aonde foi todo aquele amor que eu ouvia de suas bocas quando ia para seu colo, ainda bem novinho. Mas acho que, por fim, foi bom para os dois.

Para mim, não sei bem. Apesar de não ter mais a mesma mesada de antes, o que não me faz mesmo falta pois estou até programando uma viagem às minhas custas!:), sinto que perdi algo muito importante. Não podem ter sido aqueles gritos todos.

A Tale of Two Cities

"It was the best of times, 
it was the worst of times, 
it was the age of wisdom, 
it was the age of foolishness, 
it was the epoch of belief, 
it was the epoch of incredulity, 
it was the season of Light, 
it was the season of Darkness, 
it was the spring of hope, 
it was the winter of despair,
we had everything before us,
we had nothing before us,
we were all going direct to Heaven,
we were all going direct the other way"

Charles Dickens

Cometa erros: tente entender alguém pelo que faz em redes sociais virtuais

De acordo com uma matéria estúpida do Jornal da Globo sobre complementariedade do processo seletivo para vagas de emprego, nas redes sociais você precisa viver mais uma grande e virtuosa personagem: se furte das humanidades e modere-se. Prime pela perfeição. Quanto mais idealizado for seu perfil, melhor. Se for espontâneo, que esta espontaneidade seja imaculada; pura.

Para mim, como em qualquer outro lugar, compartilhar palavrões e vídeos estúpidos, tanto quanto falar sobre inteligência artificial para interpretação de derivativos só depende do contexto. Se furtar disto é esconder quem você é.

Matérias como esta só alimentam a hipocrisia.

Todos falamos palavrões, sentimos indisposições, e vez ou outra, falta vontade de não estar em um trabalho que não nos enxerga como pessoas falíveis. E escrever sobre isso nas redes socias pode, em grande medida, refletir apenas um estado de ânimo, momentâneo, não nossa complexa personalidade, ou potencialidades.

Qualquer uma das personas junguianas que façamos uso será apenas uma persona, e para entendê-la é preciso debruçar-se sobre a apreciação. É mesmo fácil assim traçar perfis profissionais sem uma vivência virtual com esta pessoa? Raso pensar que é possível de fato entender alguém pelo que este faz em uma ou duas redes sociais, sem acompanhá-lo de fato.

Enquanto cientistas sociais, psicólogos e antropólogos pensam como desenvolver o ramo da etnografia virtual, me aparece uma psicóloga dizendo: "tenha cuidado com o que diz nas redes socias pois não pode ser apagado".

Ao invés disto, porque não dizer: "cuide do que você é, ou quer ser, pois isto reflete em suas manifestações nas redes sociais (tanto quanto em outras vias de comunicação). E estas manifestações precisam ser espontâneas. Cuidando de si, estando atento a você mesmo, vai conseguir mostrar bem quem você é, quem você quer ser, ou quem você pode ser".

Jornalismo raso, psicologia organizacional de quinta, imaturidade no uso das redes sociais virtuais, contratantes desorientadas.